quinta-feira, 30 de julho de 2009

UMA MESA AO SOL

Hoje finalmente dei um lugar justo e merecido a uma mesa que provavelmente tenha mais de cem anos, considerando o tempo em que a madeira foi serrada e a mesa construída. Segundo que entende, o lenho é de carvalho com pinho, duas espécies que atravessam várias gerações. A história dessa mesa é muito curiosa. Nos últimos anos da década de sessenta, Irma Perini Zanatta abastada em saúde e determinação e com uma mão para cozinha como poucas, construiu uma meia água nos fundos do seu terreno na rua Theobaldo Fleck. Ali, por décadas ela fez de tudo; costurava as indumentarias dos sacerdotes, lava de joelho o piso da Igreja matriz, e fazia os melhores pastéis que algum já teve a sorte de provar. Como sobrinho predileto, sempre tive a felicidade de ter esta iguaria por perto. A mesa da qual me refiro, veio parar em minhas mãos, assim como todo o madeirame da meia água, Quanto as tábuas, de vez enquanto faço alguma coisa, mas a mesa me cobiçava. Hoje ela foi para num lugar, que se não é o mais indicado, recebe a luz do sol, o que me leva a ver a face sempre sorridente de minha tia. Pessoas como ela deveriam ser clonadas por decreto!. Durante praticamente todo o dia fiquei preparando o lugar. Posso dizer que foi emocionante vê-la em em primeiro plano no espaço destinado. Por volta das dezessete e trinta horas, Bruno, meu filho chegou em casa e criticamente disse que "esse não é o melhor lugar" Bem sai eu que o lugar de destaque desta mesa é dentro de um espaço cultural, com uma biografia da minha tia... Respondo a ele que me desse alguns dias de felicidade pois ao passar por ali , ao ver a mesa veria minha tia ... isso é estranho, tanto para ele que não chegou a conhecê-la pois era ainda criança quando do seu passamento quanto para mim que tanto desejei ver esta mesa respirando o ar livre como ela tanto fez durante sua vida. A história de vida das pessoas obedece um ciclo e este ciclo poucos, muito poucos, próximos ou distantes, podem vivenciar. Carlo Ginzburg, autor de renome internacional que estuda a microhistória, refere que os pequenos indícios são fontes importantes para reconstrução do passado. Isto também é difícil mas não impossível de ser creditado a alguém... mas num pais onde sempre se cantou o hino nacional, da bandeira... se decorou datas ditas por importantes, conheceu-se também por decoreba os nomes de ministros ... só para citar alguns, conhecer e aprofundar-se de uma geração para outra as regras da Nova História, é difícil... mas como costumo dizer, na História do homem não há culpado e sim responsáveis. Incluo-me nesta categoria. Acredito ter amenizado a minha responsabilidade em dar a mesa um lugar ao sol, merecidamente.

2 comentários:

  1. Um texto oportuno, crítico e de enorme sensibilidade...

    Bom final de semana

    Abraço

    Vera

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  2. Opa! Quem disse isso foi a Vera - Como ela tem problemas de se conectar solicitou-me que fizesse. então as palavras....
    "Um texto oportuno, crítico e de enorme sensibilidade...

    Bom final de semana

    Abraço" - é dela e não minhas!

    Vera

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